terça-feira, 8 de novembro de 2011

Paz


Manhã de sonho
Seria em braços teus
Onde o amor
Aglutina todos os meus eus

Mulher, menina
Princesa e rainha
Sou dona do mundo
E da paz intemporal -
Sem fundo

A peça faltava
E eu
A louca descontente
Buscava

A salvação
Mais do que tudo
Encontrei

Agora vivo
E és tu o meu rei.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

"José e Pilar" candidato aos Óscares



Congratulo-me e acho que é um forte candidato. Mais do que uma história, é um testemunho real. Porque nem só de Fado, Fátima e Futebol, ah!, e Fracasso, é feito este país.
A notícia acolá.
As minhas palavras sobre o filme aqui.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

"O Primo Basílio" de Eça de Queiroz

Título: O Primo Basílio
Autor: Eça de Queiroz
1.ª publicação: 1878
Editora: Círculo de Leitores
Colecção: Obras completas de Eça de Queiroz
Temática: Romance
N.º de páginas: 432

Sinopse

«Escrito em Inglaterra, O Primo Basílio, publicado em 1878, é um romance de costumes da média burguesia lisboeta e uma sátira moralizadora ao romanesco da sociedade da época.

Luísa é uma vítima das suas leituras negativas e da baixeza moral do primo, quando a ausência do marido a deixou entregue ao seu vazio interior. É uma vítima do ócio.

Eça sugere artisticamente os traços psicológicos das várias figuras da obra com os seus dramas, que de forma alguma enfraquecem o clima trágico, denso, do drama da heroína.»

Opinião

Eça de Queirozpropôs-se a escrever uma série de romances em que espelhasse os podres da sociedade portuguesa, todos de acordo com a corrente literária que adoptou: o realismo(1). Nasceu então O Primo Basílio - Um Episódio Doméstico, depois de um retrato bem tirado à província em O Crime do Padre Amaro.

Luísa é a típica mulher da média burguesia lisboeta. Sem uma ocupação que a preencha, a sua mente é um terreno fértil para devaneios românticos, incitados pelas novelas e pela música melodramática que consome, tal como pela educação que teve e que a deixou demasiado impressionável.

Sozinha em casa durante meses, já que o seu marido, Jorge, teve de se deslocar ao Alentejo, com o ressurgimento na sua vida do primo Basílio, a grande paixão da sua juventude, num momento em que se encontra tão desamparada, surge nela a vontade de provar o fruto proibido...

"Imaginava-o só [a Basílio], no seu quarto de hotel, infeliz e pálido; e daqui, pelos declives da sensibilidade, passava à recordação da sua pessoa, da sua voz convincente, das turbações do seu olhar dominante, e a memória demorava-se naquelas lembranças com uma sensação de felicidade, como a mão se esquece acariciando a plumagem doce de um pássaro raro. Sacudia a cabeça com impaciência, como se aquelas imaginações fossem os ferrões de insectos importunos: esforçava-se por pensar só em Jorge; mas as ideias más voltavam, mordiam-na: e achava-se desgraçada, sem saber o que queria, com vontades confusas de estar com Jorge, de consultar Leopoldina, de fugir para longe, ao acaso. Jesus, que infeliz que era! - E do fundo da sua natureza de preguiçosa vinha-lhe uma indefinida indignação contra Jorge, contra Basílio, contra os sentimentos, contra os deveres, contra tudo o que a fazia agitar-se e sofrer. Que a não secassem, santo Deus!". - página 122

Por um lado, Basílio encontra um antegozo nos jogos de sedução, como conquistador nato que é, e um verdadeiro gozo, maravilhado, quando toma a presa, com a qual rapidamente se enfastia e abandona. Luísa, por sua vez, é levada pelos galanteios e pela riqueza de Basílio conseguida no Brasil, e sente-se de tal forma lisonjeada pela sua atenção que, num acesso de futilidade, se chega a ver superior ao próprio marido e ao seu círculo de amigos.

Porém, o caso muda de figura quando é descoberto pela criada e esta passa a chantagear, sem tréguas, a patroa. Luísa vê-se então a mãos com uma situação para a qual não estava minimamente preparada, quer por causa dos remorsos e do receio de se ver exposta perante a sociedade, quer por chegar à conclusão que nem tão pouco amava Basílio.

A mensagem e a crítica entrelaçam-se, como sempre, nos romances de Eça e este não é excepção. O adultério é o pretexto utilizado para criticar a burguesia lisboeta em toda a sua dimensão. Desde a condição e educação da mulher, aos políticos, figurinos e ambientes da sociedade burguesa, tudo é devidamente escrutinado pela sua subtil, mas mordaz pena. E não foram poucas as vezes que me ri com algumas das situações criadas.

Assim, temos um leque de personagens secundárias que retratam vários dos tipos existentes na época: a criada Juliana, feia e de uma magreza que roça a secura, vê nas várias patroas que teve e agora em Luísa, a personificação do carrasco que tem feito da sua vida um inferno repleto de pobreza, o que a tornou uma pessoa profundamente má, invejosa e rancorosa; a cozinheira Joana, rapariga simples e de formas roliças, que aproveita as saídas dos patrões para namorar com o sapateiro. No grupo de amigos de Luísa e Jorge temos a D. Felicidade, amiga mais velha de Luísa, muito religiosa e sempre acossada por diversos achaques; o conselheiro Acácio, figura política em destaque, formal e bem tratante, é o moderador nas conversas e, alvo do amor da D. Felicidade, revela-se no final da história; o médico Julião, idealista frustrado, que espera e desespera por um cargo, o qual não quer conseguir por cunhas; e Sebastião, amigo de infância de Jorge, rico ocioso e sempre prestável. Sobram ainda Leopoldina, também amiga de Luísa,  a mal casada que não esconde os seus casos extraconjugais; e os próprios vizinhos de Luísa, sempre à espreita de uma pitada da sua vida para apimentarem as suas próprias vidas.

A linguagem é cuidada e/ou apropriada para cada tipo de personagem, como não poderia deixar de ser, mas em nenhum dos livros que já li do autor se adensa tanto como em Os Maias. Em O Primo Basílio adensa-se, mas de outra forma, pois cria-se uma atmosfera psicológica tão opressiva que quase tudo, desde as falas das personagens às descrições, parece anunciar o fim que se aproxima.

Já o público-alvo é, naturalmente, todo e qualquer contemporâneo do autor, especialmente a burguesia e as mulheres ociosas e consumidoras dos "folhetins". Naturalmente que ele foi beber, e muito, em Madame Bovary de Gustave Flaubert (2). Contudo, isso não invalida em nada o facto de existirem, em O Primo Basílio e em toda a obra de Eça, padrões intrinsecamente portugueses que se repetem ainda hoje - não fosse esta obra um clássico da literatura portuguesa.

Do mesmo autor já tinha lido O Mistério da Estrada de Sintra (1870), A Cidade e as Serras (1901, póstumo), Os Maias (1888), O Crime do Padre Amaro (1875), O Mandarim (1880) e, por último, O Primo Basílio (1878). Para mim, sem sombra de dúvida, o melhor romance de Eça, e um dos meus preferidos de sempre, é Os Maias. Desde a «questão existencial» de Carlos, à arquitectura monumental do romance, à história e à crítica, tudo revela uma mestria invejável. Agora, no que toca a'O Primo Basílio, senti algo diferente: uma empatia genuína por Luísa. Afinal de contas, toda a sua personalidade, e consequente vulnerabilidade, foram fruto de uma educação e de uma sociedade que apelavam ao sentimentalismo barato e que em nada a prepararam para a vida real.

Para rematar, o final, ao contrário de algumas críticas que li entretanto, não me desapontou. Nenhum melhor para mostrar como o «ódio» de Eça de Queiroz não se dirige às personagens em si, uma vez que são mero produto de uma fábrica defeituosa, mas sim a essa mesma fábrica: a sociedade. E mais não posso dizer, não vão as minhas palavras desvendá-lo.

Classificação: 5*   (Adorei! Como quase tudo o que li deste escritor.)

(1) Para os mais distraídos, o realismo do século XIX, do qual os seus paladinos em Portugal são Antero de Quental na poesia, e Eça de Queiroz na prosa - e isto só no que se refere à literatura -, medeia entre o romantismo de Alexandre Herculano e Almeida Garrett, e o naturalismo de Cesário Verde, e defende que a literatura deve servir como forma de exposição e reflexão da sociedade em que se vive, com o objectivo de a mudar para melhor, naturalmente.

(2) Se ainda não leram o livro, basta que consultem uma sinopse para comprovarem a minha afirmação.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Atenção: Colecção Não Nobel (Jornal Público) continua


Por um acaso dei com mais um volume desta colecção no quiosque onde vou. Fiquei então a saber que haverão mais 5 lançamentos. São eles: 

1/09 - Italo Calvino O Barão Trepador

8/09 - Émile Zola Nana

15/09 - Jorge de Sena O Físico Prodigioso

22/09 - Alberto Moravia O Conformista

29/09 - Jaroslav Hasek O Valente Soldado Chveik


Continuarão a sair semanalmente, às 5.ª feiras, por €5,95.



"Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve"


 ( via glamorous things )

Sei que este texto tem circulado pela blogosfera desde a sua publicação, mas não resisti a partilhá-lo convosco. Identifico-me com quase tudo e adorei lê-lo. Enjoy! (:
Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.

Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler dentro da mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.

Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira por cima, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.

Oferece-lhe outra chávena de café com leite.

Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.

Ela tem de arriscar, de alguma maneira.

Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.

Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.

Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.

Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.

Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.

Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.

Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.

Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve.

(Texto de Rosemary Urquico, encontrado no blogue de Cynthia Grow. Tradução “informal” de Carla Maia de Almeida para celebrar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Nova estante, novos espaços

Há uns tempos publiquei umas fotos das minhas estantes. Como não eram suficientes e o meu quarto é pequeno, tinha que fazer um estudo aprofundado cada vez que comprava um livro, para descobrir onde o podia enfiar... Depois de muito pedinchar, tiveram dó do meu vício por livros e uma vizinha ofereceu-me uma nova estante. Eis o resultado:






Continuo a ter dois pequenos módulos, que usei para aproveitar o espaço nas mesas-de-cabeceira, e outro módulo para as colecções da revista Sábado.




 E ainda, estas duas aquisições: um cadeirão bastante confortável e este tabuleiro de apoio para os livros ou portátil.


E por agora é tudo... Até que volte a precisar de novos espaços para a minha crescente biblioteca. (:

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

fénix


( via Pinterest )

fénix 
insofrida
requeimada
retorcida
asas
em frenesim
sonhos e cinzas 
esvoaçantes
ser desgraçado
sou eu
que te falo

pela janela em que te vi
repouso
o meu regaço
brilham
como brasas
as duas lágrimas
escorrem

olhas 
como quem 
não quer 
quer
tudo de mim

lábios teus 
anelos
me pedem
infalível a fraqueza
estremece
alma e corpo
te dou

fénix 
insofrida
requeimada
retorcida
tuas asas
procuro
e
ardo 
não sei quem sou.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

E ainda... Ondjaki

( Mulher à janela de Fernando Botero)

"(…) Nada.., que a tuga até num vale a pena…! Mambo(1) que às vezes penso – epá, vais rir, eu sei, mas é o rabo das tugas… Meu, tábua d’engomar, a xoetice(2) toda? Rabo foi aonde então, Nzambi(3) lhes castigou assim porquê?, nossa observação que nós fazíamos, antigas missões na tuga e noutras europas mais, comissão disto e daquilo que dava é pra tirarmos comissões no nosso bolso, e nós ali no bar, fim de tarde, sem as palavras – os olhares só: uma tuga, duas tugas, muitas tugas, mas agora pra encontrar inda um rabo de acender mesmo as vistas? Passas mal. Uí, falo isso por causa da maka(4) das culturas, diferenças só, que eu fico mesmo a pensar que a cultura está mesmo até nos nossos olhos de pessoas, tás a rir?, gala(5) só então: um gajo é daqui, fica a pôr riso na dança dos tugas e outros europeus, ancas desarranjadas e não dão semba(6), tão a falar é malcriado, mambos(7) dos brasileiros, carnaval só. Afinal? Mas depois, considera só: eles também a nos verem dançar e vestir e pôr cu duro, num vão falar dança dos bêbados?, a dar bungula(8) puramente e pôr açúcar e as kabetulas(9) todas, num vão dizer estamos a ficar parecidos com os macacos?, xinguilamentos(10) musicais? Olhos deles, muadiê(11), tou ta pôr, e os nossos olhos todos de cada um: culturas!, num enormes plural e final das contas.” – página 105, em Quantas Madrugas Tem a Noite, de Ondjaki.

(1) coisa; assunto. (2) desprovimento de nádegas salientes. (3) Deus. (4) problema. (5) vê. (6) passo de dança que consiste no confronto das zonas pélvicas entre duas pessoas. (7) coisas; assuntos. (8) tipo de dança. (9) tipo de dança. (10) o estrebuchar. (11) moço; rapaz; homem.


Admirável como Ondjaki consegue conjugar temas tão diversos como a anatomia feminina e os preconceitos culturais. Simultaneamente, deu ainda pequenos consolos à minha auto-estima. Peso 70 kg e a minha gordura está localizada nas ancas e nas coxas. Deverei eu, e todas as mulheres que não tiveram a sorte da perfeição, emigrar para Angola? Ou tudo não passa de uma brutal futilidade que só tem valor pelo lugar em que nascemos e fomos educados? E como isto é tudo, pois caso tivéssemos derivado de um sítio onde fosse culturalmente aceite que, por um lado, os homens andassem de saltos altos e, por outro, as mulheres se pavoneassem nuas para facilitar a reprodução, alguém veria o ridículo da questão? Eu não.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Influências camonianas


Até hoje nunca tinha compreendido tão bem o drama de Camões...

Há poucas horas fui submetida a uma cirurgia oftalmológica para corrigir a miopia do olho direito, ou seja, quando este olho estiver «operacional» vou ver bem sem óculos ou lentes de contacto. O mesmo acontecerá com o olho esquerdo, intervencionado daqui a sensivelmente um mês.

Voltando à afirmação inicial: na noite de domingo para segunda sonhei com o Poeta. Não que tenha algo contra ele, pois até já li a monumental obra que é Os Lusíadas. Porém, se já andava nervosa, não me deixou propriamente descansada vê-lo surgir de entre as sombras.

Bom, em parte o «prenúncio» concretizou-se. Primeiro, porque tenho um olho tapado - graças a deus que não foi vazado durante uma escaramuça! - e o campo de visão substancialmente reduzido. Segundo, porque quando o destapar não vou puder fazer o que mais gosto por um período que me parece por demais longo: satisfazer o vício da leitura e, também, o de escrever aqui para o blogue. Mas sei que todos estes incómodos vão valer a pena, nem que seja pela minha saúde e pela minha auto-estima.

Por isso vos peço que me desejem uma rapidíssima recuperação, para que não esteja missing my wonderland...

Até breve!, ou, como eu gosto de dizer, see u soon

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Reformulações

( Departure of the Winged Ship do pintor russo Vladimir Kush via beautiful life


A vida é só uma, é a frase que mais tenho ouvido. Que fiz eu dela até agora? Nada de relevante, é a resposta que me surge tão espontâneamente que logo aí me demonstra tudo o que preciso saber. Vejo os navios e tanto os tenho desejado... Prestes passam. E eu sofro de os ver partir. 

Reformulando:

A vida é só uma, é a frase que mais tenho ouvido. Que vou eu fazer dela agora? Vou viver! Ser quem nunca fui!, é a resposta que me surge tão instantaneamente que me tira até o fôlego. Nenhum dos navios ficará por apanhar. E as borboletas, gotejando sangue e suor, seguirão os meus passos, neste jogo de cintura entre as ondas da vida e do sonho.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

"Cem Anos de Solidão" de Gabriel García Márquez [Opinião]

Título original: Cien Años de Soledad
Autor: Gabriel García Márquez
1.ª publicação: 1967
Editora: Dom Quixote
Temática: Romance
ISBN: 9789722039208
N.º de páginas: 424
Para adquirir (outra edição da obra):


Sinopse:

«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.» Com estas palavras – tão célebres já como as palavras iniciais do Dom Quixote ou de À Procura do Tempo Perdido – começam estes Cem Anos de Solidão, obra-prima da literatura contemporânea, traduzida em todas as línguas do mundo, que consagrou definitivamente Gabriel García Marquez como um dos maiores escritores do nosso tempo.

A fabulosa aventura da família Buendía-Iguarán com os seus milagres, fantasias, obsessões, tragédias, incestos, adultérios, rebeldias, descobertas e condenações são a representação ao mesmo tempo do mito e da história, da tragédia e do amor do mundo inteiro.»

Opinião:

Cem Anos de Solidão é um dos livros mais traduzidos e lidos e, por isso mesmo, o mais  badalado de Gabriel García Márquez, escritor colombiano e prémio Nobel da Literatura de 1982. Percursor do chamado "realismo mágico" ou "realismo fantástico", esta obra é um marco na literatura latino-americana e serviu de inspiração para escritoras tão conhecidas como Laura Esquível ou Isabel Allende.

Nele o autor narra-nos a história da família Buendía, desde a sua origem até ao seu fim, geração após geração. Fundada pelo José Arcadio Buendía e pela sua esposa, Úrsula Iguarán, toda a acção se passa em Macondo, uma aldeia, depois vila e cidade, cuja localização exacta não nos é dita, mas que claramente deduzimos, pelo seu clima tropical e quente, ficar no interior de um dos países da América Latina: perto dos pântanos, longe do mar e da civilização.

Ao longo de cem anos, nos quais Úrsula vive acompanhando e cuidando dos seus descendentes (estima-se que tenha vivido bem mais de cem anos), observamos como os membros da família Buendía, por mais que tentem, não conseguem fugir à solidão. Ainda que alcancem momentos de intensa e extrema felicidade, a inevitabilidade do seu destino alcança-os sempre, sendo que a maioria morre em circunstâncias inusuais.

Assim, o tempo e a repetição de características nos diversos membros da família, formam como que um círculo vicioso, onde o tempo não parece ter nem princípio nem fim. A própria Úrsula, possuidora de um profundo conhecimento de todos os homens da sua família, chega a esta conclusão nos últimos instantes da sua longa, longa vida:  "O tempo anda em círculos".

Outra personagem que acompanha esta família é o misterioso Melquíades, um dos primeiros ciganos que chega a Macondo e que demonstra várias das maravilhas inventadas por todo o mundo, cativando desde logo o  primeiro José Arcadio Buendia, curioso inventor. Ao morrer, Melquíades deixa um misterioso manuscrito escrito numa linguagem desconhecida  e que as diversas gerações tentam decifrar, com a ajuda do seu próprio fantasma. Caberá ao último descendente da família decifrá-lo e revelar-nos o destino da família Buendía...

Estive a ler algumas opiniões pela internet fora e, de uma forma geral, um dos principais obstáculos com que os leitores se deparam é a dificuldade sentida em conseguirem acompanhar a torrente de acontecimentos narrados, nem sempre claros pela introdução de marcas do realismo mágico (por exemplo, um homem perseguido por borboletas amarelas, uma população inteira que se esquece de um massacre, uma mulher que se eleva até aos céus como se de uma santa se tratasse). Não surgem reflexões da parte do autor a não ser pela boca das personagens: a história é simplesmente narrada e a nós cabe-nos o papel de tirar as conclusões pelos episódios que ocorrem.

Para além disso, um fenómeno curioso é a repetição de nomes pelas sucessivas gerações: por um lado encontram-se os Aurelianos, introspectivos, acanhados, mas persistentes defensores das suas causas; por outro, os Arcadios, impulsivos, emotivos e sonhadores. Ambos marcados pela solidão. O facto de esta repetição ser uma constante e do narrador evocar personagens de gerações anteriores, facilita a existência de alguma confusão. Nada mais simples do que utilizar uma árvore genealógica para evitar este problema. Esta edição da obra tem uma no início do livro, mas existem muitas mais, basta para isso pesquisar no Google.

Até aqui tenho falado das personagens e da forma como é construída a história. Mas afinal de contas, qual é a mensagem que nos veicula Cem Anos de Solidão? García Márquez, enquanto escritor contestário das injustiças que o rodeiam, aproveita a personagem do coronel Aureliano Buendía para criticar a guerra - as suas causas e consequências -, e a política - a inconstância dos seus defensores que, além de terem ideologias ocas, alternam de lado consoante o vento mais favorável... A prepotência ditatorial surge num massacre cujos efeitos nefastos arrasam José Arcadio Segundo: o único sobrevivente de três mil e tal pessoas, enlouquece. Num dado momento invade Macondo uma companhia bananeira dirigida pelos gringos, devastando para sempre uma cidade que até então tinha tido um desenvolvimento inacreditável: o capitalismo usou e abusou de Macondo, sem consultar os que já lhe pertenciam, e deslocalizou-se, deixando atrás de si uma cidade que não mais veio a recuperar. Uma questão que também se pode colocar é a importância dos laços de sangue, da genética, na transmissão de conhecimentos - instintos - e experiências implícitos de geração para  geração. A própria religião não escapa, sendo expostos através de Fernanda del Carpio os efeitos devastadores do fanatismo religioso.

Deste escritor já tinha lido Crónica de Uma Morte Anunciada, Ninguém Escreve ao Coronel e Amor em Tempos de Cólera, portanto já sabia de antemão o que esperar. Porém, nenhum destes me agarrou tanto como Cem Anos de Solidão: identifiquei-me intimamente com a sina das personagens, a solidão que as perseguia. Foi uma leitura impulsiva derivada do prazer que me provocou: não consegui largar o livro, devorei-o num par de dias, precisava de saber que destino iria ter esta família tão fora do comum. E julgo que é assim que deve ser lido, caso contrário, perdemos o fio à meada: se ficamos muito tempo longe da história, quando voltarmos a mergulhar nela, dificilmente nos conseguimos situar. Não achei nem a escrita demasiado rebuscada, nem tão pouco o rol de indivíduos com os mesmos nomes me confundiu, até porque estou habituada a ler clássicos da literatura - e este livro já se encontra nessa categoria, na minha humilde opinião -, que exigem uma atenção constante aos pormenores.

O final é perfeito e deixou-me sem palavras. Cada palavra deleitou-me e inspirou-me a combater a solidão.

Classificação: 5/5* (Adorei!)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Sonho



Procuro na ilusão do que não terei, nem tão pouco serei, e tudo redonda em nada. Vivo numa eterna insatisfação, iluminada de efémeras esperanças. Cada vez menos falo, cada vez mais me perco. Prendi-me numa masmorra da qual deitei fora a chave. Para sair, só saltando, e não será tarefa fácil. Nem sempre sei quem sou ou o que procuro. Apenas sei que tudo redonda em desilusão. Porque o mundo não é feito para quem sonha acordado tão doces utopias...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Vazio


Hoje não consigo escrever. Pura e simplesmente não consigo. 
Quando penso que cheguei ao fundo, eis que se abre um alçapão.
Mas renascerei das cinzas. Again and again and again...

terça-feira, 7 de junho de 2011

Árvore


( pintura elaborada por mim )

Tronco meu corpo
Raízes minha vida,
A elas busco a seiva que o faz medrar.
Nascem as ilusões
E em ramos se vão mostrar.
Por vezes entrelaçam-se,
Por vezes folhas surgem,
Poucas vezes brotam flores,
Ainda menos frutos nascem.

O vento sopra:
As folhas caem,
Os frutos despedaçam-se,
As flores morrem.
Resta o meu corpo
Vazio,
Tão frio.

Quem me vem salvar?

Ai vida, dá-me a seiva!
E ela dá, sem nunca parar.

domingo, 5 de junho de 2011

"Precious" de Sapphire [Opinião]

Título original: Push
Autor: Sapphire
1.ª publicação: 1996
Editora: Impresa Publishing (Revista Visão)
Temática: Romance
ISBN: 978846120594
N.º de páginas: 180

Para adquirir (outra edição da obra):


Sinopse:

Esta é a história de Claireece Precious Jones, uma jovem de 16 anos, igual às outras raparigas da sua idade em muitas coisas... mas muito singular noutras: Claireece é obesa, analfabeta, foi vítima de abusos sexuais do seu pai, do qual teve uma filha, e é maltratada psicologicamente pela sua mãe. Quando Precious, após outra violação, fica novamente grávida, é expulsa da escola e começa uma nova educação num centro especial para casos extremos... e a sua vida mudará para sempre.

Poucos filmes causaram tanta comoção nos festivais de Sundance e de Cannes de 2009 como Precious de Lee Daniels, no qual as interpretações da recém-chegada ao grande ecrã Gabourey Sidibe no papel de Precious e Mo'Nique no da sua abusiva mãe foram celebradas pela crítica e arrasaram todos os prémios do ano.



Opinião:

Li há poucos dias Precious de Sapphire porque senti necessidade de um exemplo de força e coragem, o que me fez lembrar que este era um livro que falava disso mesmo.

Quem nos fala é Claireece Precious Jones, uma rapariga afro-americana de 16 anos, obesa, que está grávida pela segunda vez do próprio pai (foi mãe pela primeira vez aos 12 anos de uma criança com Síndrome de Down) e que chegou ao 9.º ano analfabeta (só chumbou duas vezes) - para ela todas as páginas são iguais. É ainda vítima da violência física e psicológica da mãe, uma pessoa desestruturada a todos os níveis, que culpa a filha, por ela ter engravidado, de o pai as ter abandonado.

A linguagem tenta retratar as dificuldades por que passa alguém que só aprende a ler e a escrever aos 16 anos. Não sinto que o objectivo tenha sido alcançado, porque se via que Precious tanto escrevia mal palavras simples, como conseguia escrever palavras no mínimo complicadas para uma pessoa possuidora de tão reduzido vocabulário. Ressalve-se que a linguagem utilizada é explícita, o que não nos deixa passar indiferentes por esta leitura - obriga-nos a parar e a reflectir, a retomar o fôlego e a preparar-nos para mais um murro no estômago - o que deve,  sem dúvida alguma, perturbar as mentes mais susceptíveis.

A sucessão de desgraças que ocorrem a Precious é tão intensa que se torna inverosímil: parece padecer e concentrar em si todos os sofrimentos possíveis e imagináveis. Apesar disso, a sua força é, no mínimo, inspiradora. Com a ajuda das suas colegas e da professora Blue Rain da escola alternativa Each One Teach One, vai ultrapassando todas as contrariedades que se lhe deparam, preocupando-se com o seu destino, na medida em que este inclua também um futuro risonho para os seus filhos.
O livro fala ainda de casos de outras mulheres, colegas de turma de Precious: vítimas da droga, do incesto, do roubo e da violência, foram crianças que não existiram...

Está patente uma intensa crítica ao sistema de ensino americano que permitiu que Precious chegasse ao 9.º ano (com 16 anos e só chumbando em dois anos) sem saber ler nem escrever (chegou a ter óptimas notas!). Nenhum dos professores que a ensinaram se preocupou em descobrir as causas dos alarmantes sinais de perturbação emocional que demonstrava.

Igualmente se critica o Well Fare State, correspondente à Segurança Social portuguesa, relativamente à sua  importância para salvar as pessoas de uma situação de penúria extrema, por um lado, e à fiscalização ineficiente, por outro, criando situações viciosas como a de mãe de Precious que, para além de não trabalhar e não procurar emprego, ainda por cima utiliza a filha e a neta - esta última que nem sequer está a seu cargo, mas sim com a mãe, avó de Precious - para obter os cheques da Segurança Social.


O filme: Confesso que as minhas expectativas não eram muitas uma vez que o filme foi produzido pela Oprah Winfrey (o conceito do programa dela é pelo menos duvidoso...). Por outro lado, na altura em que foi lançado, foi tão aclamado pela crítica que ainda me lembrava disso três anos depois. É uma adaptação quase integral do livro, com poucas alterações, que se notam principalmente a partir do meio do filme e não se poupa em reproduzir as suas imagens chocantes. Felizmente estas são alternadas com momentos menos maus que nos ajudam a ver o filme até ao fim. Termina com o destino de Precious em aberto, dando-nos a esperança de que a partir dali só algo de bom lhe pode suceder.

Certo é que, tanto no livro como no filme, a mensagem patente é a de que se tem de lutar para que não nos deixemos dominar pelo infortúnio e para que alcancemos os nossos sonhos. A vida não é fácil, porém, não é menos verdade que podemos sempre fazer algo para que ela melhore.

Classificação: 4/5* (Vale, sobretudo, pela sua mensagem)

domingo, 29 de maio de 2011

"Filhos e Amantes" de D. H. Lawrence [Opinião]

Título original: Sons and Lovers 
Autor: D. H. Lawrence 
1.ª publicação: 1913 
Editora: Público 
Temática: Romance 
ISBN: 9789896820855 
N.º de páginas: 507
Para adquirir (outra edição da obra):



Sinopse:

"Este clássico de D. H. Lawrence passa-se nas minas de carvão de Nothingham e acompanha a vida da família de Walter Morel, mineiro de profissão. Cansado e desiludido com o seu trabalho, Morel é um homem rude que está frequentemente alcoolizado. A sua mulher, decepcionada com o seu comportamento, acaba por depositar todas as suas esperanças nos filhos, principalmente em Paul, o protagonista do romance. Filhos e Amantes é considerado o primeiro retrato moderno do Complexo de Édipo, estudado por Freud.

D. H. Lawrence não ganhou o prémio Nobel por ser considerado um misógino "fora de moda". O escritor de Lady Chaterley foi uma figura controversa, com obras censuradas pelo seu erotismo, o que pode ter contribuído para a não atribuição do prémio."

Opinião:

Quem não ouviu já falar do complexo de Édipo? Freud formulou-o com base na tragédia grega Édipo Rei. De forma resumida, esta contava-nos a história de Édipo: ainda em pequeno, após ser predestinado pelos oráculos que mataria o seu pai e se casaria com a mãe, os pais, reis de Tebas, resolvem abandoná-lo. Encontrado por um pastor, Édipo cresce e sai da sua terra. Ignorando as suas verdadeiras origens, encontra no caminho o seu verdadeiro pai, acabando por matá-lo. Ficando com o direito a ser rei de Tebas por um desafio que ultrapassou, sua cidade natal. Inconscientemente escolhe para sua consorte a sua própria mãe, tendo com ela quatro filhos. Novamente os oráculos têm um papel predominante: dizem a Jocasta e a Édipo que são mãe e filho. A primeira, suicida-se; o segundo, fura os próprios olhos, castigo a que se submete por não ter reconhecido aquela que era sua mãe. Assim, Freud diz-nos que o complexo de Édipo se baseia no desejo que o rapaz, num dado estádio do seu desenvolvimento físico e sexual, sente pela mãe por ser um ser do sexo oposto, nutrindo por ela amor, enquanto que o pai passa a ser um seu rival, o que lhe desperta ódio. Apenas quando a criança se apercebe da impossibilidade de possuir a mãe, o pai surge como uma figura que deve ser tomada como exemplo.

Ora, que tem tudo isto a ver com o romance?  Filhos e Amantes surge exactamente como um retrato do complexo de Édipo em tempos mais recentes (princípio do século XX).

Gerturde e Walter Morel formam um casal que, à partida, não tem muito futuro. Walter é um ser primitivo, irascível, rude e fogoso. Gertrude apaixona-se por ele, fascinada com o seu vigor e vitalidade. Após os primeiros tempos de um casamento feliz, Gertrude depara-se com consecutivas desilusões: ao contrário de si, Walter é imprudente, irresponsável, mentiroso, nada ambicioso, contentando-se com a vida pouco regrada que o seu labor de mineiro pode proporcionar, não se preocupando em dar mais do que o estritamente necessário à família. Pelo contrário, Gertrude é uma mulher de carácter vincado, o pilar da família, responsável por controlar a economia familiar e a criação e educação dos filhos. Intelectualmente activa, religiosa e puritana, nunca dançava. Incutiu aos filhos a sua visão da vida, já que a sua educação estava a seu cargo e promete a si própria poupar os filhos do ambiente familiar miserável em que vivem -  as privações materiais mais a ausência de carinho e amor por parte do pai - sendo que tudo redonda na sobreprotecção da mãe.

Acompanhamos o nascimento dos filhos no seio de uma relação extremamente conflituosa: William, o primogénito, é a esperança da mãe; Annie, a única menina; Paul, de quem acompanhamos o nascimento e se torna o protagonista - profundamente ligado à mãe; Arthur, o único que gostava do pai, a princípio, e que herdou o seu carácter impetuoso. Estes estão contra o pai, alcoólico, presente mas ausente, sempre surripiando o dinheiro para satisfazer o seu vício, ainda que numa proporção manifestamente inconsequente.

Os episódios de extrema violência sucedem-se numa guerra pautada pela frustração de Gertrude e pela insensibilidade do seu marido. Após um episódio deveras marcante para o casal, Gertrude desiste de tentar mudar o marido e faz dos filhos a sua razão de viver.

William e Paul tornam-se, primeiro um, depois o outro, em depósitos das esperanças, desejos e mesmo da vida da mãe, que só vive para e por eles. A mãe desencadeia neles, sobretudo em Paul, o amor, mesmo a uma paixão ardente, e retribui-lhes na mesma moeda, ainda que não tenha havido concretização física - tudo acontece do ponto de vista de uma análise psicológica.

A segunda parte do romance (está dividido em duas partes, sendo que a segunda é a maior) foca-se em Paul, o terceiro filho da família Morel. Dependente da mãe e da irmã, mais distante de William, o irmão mais velho, e sem qualquer ligação ao pai - tudo isto contribuiu para a não resolução do seu complexo de Édipo. Assume a predilecção da mãe por si e corresponde-lhe vivamente. Ela não tem defeitos perante os seus olhos e recusa-se a aceitar que o passar dos anos lhe causem algum desgaste, santificando-a. Conta-lhe todos os acontecimentos da sua vida, por mais insignificantes que sejam, à excepção das experiências sexuais. Paul mostra-se ainda extremamente influenciável pela mãe, ainda que a sua personalidade caprichosa por vezes o faça divergir dela. Nota-se como facilmente se torna íntimo das mulheres e como elas o têm entre si sem receios, chegando mesmo a competir pela sua atenção e amizade. Gertrude é ciumenta pelo lugar que elas ocupam no coração do filho, contudo é a si que Paul retorna sempre, pois a mãe é o seu porto seguro. Por tudo isto julgo que é explorado um quadrilátero amoroso entre Paul, a sua mãe, Miriam e Clara.

Após consultar uma outra edição desta obra (edição de 1994 das Publicações Dom Quixote), acho que há duas informações que não podem deixar de ser dadas: "D. H. Lawrence (1885-1930) nasceu em Eastwood, no Nottinghamshire, filho de um mineiro e de uma mulher de grandes ambições, assistiu desde menino às desavenças entre os pais, motivadas por divergências de opinião quanto ao futuro dos filhos, conflitos conjugais esses que retratou na presente obra" , o que revela um carácter marcadamente autobiográfico nesta história.

Para além disso, na contracapa da mesma edição é-nos dito que: "A versão integral de Filhos e Amantes é agora publicada pela primeira vez. É dez por cento mais longa do que a versão disponível até à data: oitenta páginas haviam sido cortadas pelo primeiro editor, algumas delas devido à inclusão de sexo explícito. Sem outra fonte de rendimento, D. H. Lawrence viu-se forçado a concordar com os cortes e as alterações introduzidas: «Quero lá saber se [o editor] vai cortar uma centena de páginas duvidosas de Filhos e Amantes. O livro tem de se vender, preciso do dinheiro para viver». Passados oitenta anos, a obra-prima de D. H. Lawrence pode finalmente ser publicada tal qual ele a escrever". Fiquei sinceramente na dúvida se esta edição do Público que li está ou não completa, sobretudo depois de ler a introdução da edição da Dom Quixote. Não encontrei cenas de sexo explícito, apenas erotismo. Comparei e encontrei manifestas diferenças. Por exemplo:

Versão da edição do Público: "Havia até um par de meias no espaldar duma cadeira. [...] Sentou-se na cama, considerou em volta a escuridão do quarto, com as pernas cruzadas, imóvel, escutando" (pp. 407-408).

Versão original: "Sentou-se na cama e olhou o quarto às escuras. Apercebeu-se então de um par de meias de vidro nas costas de uma cadeira. Levantou-se sem ruído e calçou-as, sentando-se na cadeira imóvel, sabendo que tinha de a possuir. Depois, sentou-se na cama, erecto, com os pés dobrados sob o corpo, perfeitamente imóvel, à escuta".

Afinal, em que ficamos? Se alguém souber, que me diga. Custo a acreditar que tenha sido publicada a versão censurada de uma obra em pleno século XXI...

De qualquer forma, o livro não me cativou o suficiente para me fazer aprofundar as pesquisas. Dividido em duas partes, achei a primeira, com o combate entre Gertrude e Walter e a formação da sua família, bastante melhor do que a segunda, onde acompanhamos o crescimento de Paul, os seus amores e desamores e a sua relação com a mãe. A exploração do complexo de Édipo é bem feita, sem dúvida - e julgo que esse era o propósito do autor: mostrar como o seu protagonista foi vítima do excesso de amor da mãe e do seu complexo de Édipo não resolvido. Porém, Paul revela-se como alguém cada vez menos interessante, cada vez mais vazio, perdido nas teias do amor que consagra à mãe, até ele próprio se desfazer em nada. Deste modo, acabei por naturalmente me desinteressar acerca do seu destino e perder interesse na leitura.

Classificação:  3,0/5*

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A problemática do verbo amar



Olho para os teus pés, descalços. Se não estivéssemos aqui, nada me impediria de idolatrá-los. Não, não é o resultado de alguma perversão fetichista. Apenas quero amar-te. Apetece-me. E se os meus braços não te podem abarcar por inteiro, melhor será que vá por partes. 

Nada em ti é por acaso. Tudo está em total harmonia ainda que toldado pela mais perfeita desproporção. Se as partes fazem o todo, e o todo é perfeito, por que não haveriam de o ser as partes? São incompletas, dizes, nada significam por si só. Mais uma razão para que as abandones: todo o teu pouco é tudo para mim.

Neste jogo em que não há certo ou errado, por que não me deixas a eles consagrar? Não quererás que lhes conjugue o verbo amar?

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A leitora





Sou uma leitora compulsiva, mesmo quando não tenho vontade de mais nada (e isso acontece mais vezes do que o recomendável...).  Não sou capaz de ler de manhã à noite, porque rapidamente os meus olhos se ressentem e me impedem de prosseguir as leituras de que tanto gosto. Por isso mesmo a minha falta de vista tem aumentado de forma galopante, mas não me importo, porque quem corre por gosto não se cansa.

Consigo ler em qualquer sítio, sendo fácil, por um lado, concentrar-me no que leio, e, por outro, abstrair-me do que me rodeia. Sinto que não tenho uma imaginação pródiga, pois não consigo visualizar sempre, com toda a precisão, as imagens que nos tentam evocar (talvez porque a experiência de vida não é muita? ou, noutros casos, será incapacidade do próprio escritor?). Quando isso acontece, recorro a filmes baseados nas obras, se existirem, claro (por exemplo, Orgulho e Preconceito de Jane Austen).

Privilegio os clássicos. Creio que, para terem alcançado esse estatuto, certamente são garante de alguma qualidade e o preço é, de um modo geral, convidativo (graças a colecções que revistas e jornais têm vindo lançando). São imperenes: aprendo com eles e enriqueço o meu carácter, quer tenham surgido no século XV ou XX.

Todos os livros da minha biblioteca passam por um mesmo ritual. A aquisição de um novo inquilino é especial: estudo-o ao pormenor, analiso se a relação qualidade-preço é positiva, e, quando o obtenho, sinto um gozo imenso ao folheá-lo e cheirá-lo (adoro tanto o cheiro de um livro novo!);  adiciono-o à minha base de dados livresca (utilizo o Goodreads); coloco-o na minha biblioteca, que vou vendo crescer de dia para dia, o que exige sempre alguns estratagemas para ir arranjando espaço; observo-os a todos nos sítios que lhes destinei; e, por fim e mais importante, chega o momento de os ler, acabando quase sempre por decidir impulsivamente.

Como não consigo estar sem fazer nada - começo a ficar ansiosa, sem saber onde pôr as mãos, olhando para tudo e todos -, socorro-me da leitura para me livrar dos tempos mortos. E, devo admitir, dá um certo ar de intelectual ler numa esplanada, café, jardim, ou até na escola, sobretudo se os que me rodeiam passam o tempo em maledicências sobre a vida dos outros...

Encaro as vidas que se desenrolam perante mim como muito menos interessantes quando comparadas às que encontro nos livros. Nem que seja por, na maioria dos casos que, apesar de se tratarem de épocas remotas e/ou lugares longínquos, me ensinam muito mais sobre o carácter humano do que o contacto com as pessoas reais,  já que as personagens nos são apresentadas em toda a sua dimensão: conhecemos os seus segredos, intenções e motivações. Fica a esperança de um dia poder pôr em prática os conhecimentos que adquiri.