quarta-feira, 22 de junho de 2011

Sonho



Procuro na ilusão do que não terei, nem tão pouco serei, e tudo redonda em nada. Vivo numa eterna insatisfação, iluminada de efémeras esperanças. Cada vez menos falo, cada vez mais me perco. Prendi-me numa masmorra da qual deitei fora a chave. Para sair, só saltando, e não será tarefa fácil. Nem sempre sei quem sou ou o que procuro. Apenas sei que tudo redonda em desilusão. Porque o mundo não é feito para quem sonha acordado tão doces utopias...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Vazio


Hoje não consigo escrever. Pura e simplesmente não consigo. 
Quando penso que cheguei ao fundo, eis que se abre um alçapão.
Mas renascerei das cinzas. Again and again and again...

terça-feira, 7 de junho de 2011

Árvore


( pintura elaborada por mim )

Tronco meu corpo
Raízes minha vida,
A elas busco a seiva que o faz medrar.
Nascem as ilusões
E em ramos se vão mostrar.
Por vezes entrelaçam-se,
Por vezes folhas surgem,
Poucas vezes brotam flores,
Ainda menos frutos nascem.

O vento sopra:
As folhas caem,
Os frutos despedaçam-se,
As flores morrem.
Resta o meu corpo
Vazio,
Tão frio.

Quem me vem salvar?

Ai vida, dá-me a seiva!
E ela dá, sem nunca parar.

domingo, 5 de junho de 2011

"Precious" de Sapphire [Opinião]

Título original: Push
Autor: Sapphire
1.ª publicação: 1996
Editora: Impresa Publishing (Revista Visão)
Temática: Romance
ISBN: 978846120594
N.º de páginas: 180

Para adquirir (outra edição da obra):


Sinopse:

Esta é a história de Claireece Precious Jones, uma jovem de 16 anos, igual às outras raparigas da sua idade em muitas coisas... mas muito singular noutras: Claireece é obesa, analfabeta, foi vítima de abusos sexuais do seu pai, do qual teve uma filha, e é maltratada psicologicamente pela sua mãe. Quando Precious, após outra violação, fica novamente grávida, é expulsa da escola e começa uma nova educação num centro especial para casos extremos... e a sua vida mudará para sempre.

Poucos filmes causaram tanta comoção nos festivais de Sundance e de Cannes de 2009 como Precious de Lee Daniels, no qual as interpretações da recém-chegada ao grande ecrã Gabourey Sidibe no papel de Precious e Mo'Nique no da sua abusiva mãe foram celebradas pela crítica e arrasaram todos os prémios do ano.



Opinião:

Li há poucos dias Precious de Sapphire porque senti necessidade de um exemplo de força e coragem, o que me fez lembrar que este era um livro que falava disso mesmo.

Quem nos fala é Claireece Precious Jones, uma rapariga afro-americana de 16 anos, obesa, que está grávida pela segunda vez do próprio pai (foi mãe pela primeira vez aos 12 anos de uma criança com Síndrome de Down) e que chegou ao 9.º ano analfabeta (só chumbou duas vezes) - para ela todas as páginas são iguais. É ainda vítima da violência física e psicológica da mãe, uma pessoa desestruturada a todos os níveis, que culpa a filha, por ela ter engravidado, de o pai as ter abandonado.

A linguagem tenta retratar as dificuldades por que passa alguém que só aprende a ler e a escrever aos 16 anos. Não sinto que o objectivo tenha sido alcançado, porque se via que Precious tanto escrevia mal palavras simples, como conseguia escrever palavras no mínimo complicadas para uma pessoa possuidora de tão reduzido vocabulário. Ressalve-se que a linguagem utilizada é explícita, o que não nos deixa passar indiferentes por esta leitura - obriga-nos a parar e a reflectir, a retomar o fôlego e a preparar-nos para mais um murro no estômago - o que deve,  sem dúvida alguma, perturbar as mentes mais susceptíveis.

A sucessão de desgraças que ocorrem a Precious é tão intensa que se torna inverosímil: parece padecer e concentrar em si todos os sofrimentos possíveis e imagináveis. Apesar disso, a sua força é, no mínimo, inspiradora. Com a ajuda das suas colegas e da professora Blue Rain da escola alternativa Each One Teach One, vai ultrapassando todas as contrariedades que se lhe deparam, preocupando-se com o seu destino, na medida em que este inclua também um futuro risonho para os seus filhos.
O livro fala ainda de casos de outras mulheres, colegas de turma de Precious: vítimas da droga, do incesto, do roubo e da violência, foram crianças que não existiram...

Está patente uma intensa crítica ao sistema de ensino americano que permitiu que Precious chegasse ao 9.º ano (com 16 anos e só chumbando em dois anos) sem saber ler nem escrever (chegou a ter óptimas notas!). Nenhum dos professores que a ensinaram se preocupou em descobrir as causas dos alarmantes sinais de perturbação emocional que demonstrava.

Igualmente se critica o Well Fare State, correspondente à Segurança Social portuguesa, relativamente à sua  importância para salvar as pessoas de uma situação de penúria extrema, por um lado, e à fiscalização ineficiente, por outro, criando situações viciosas como a de mãe de Precious que, para além de não trabalhar e não procurar emprego, ainda por cima utiliza a filha e a neta - esta última que nem sequer está a seu cargo, mas sim com a mãe, avó de Precious - para obter os cheques da Segurança Social.


O filme: Confesso que as minhas expectativas não eram muitas uma vez que o filme foi produzido pela Oprah Winfrey (o conceito do programa dela é pelo menos duvidoso...). Por outro lado, na altura em que foi lançado, foi tão aclamado pela crítica que ainda me lembrava disso três anos depois. É uma adaptação quase integral do livro, com poucas alterações, que se notam principalmente a partir do meio do filme e não se poupa em reproduzir as suas imagens chocantes. Felizmente estas são alternadas com momentos menos maus que nos ajudam a ver o filme até ao fim. Termina com o destino de Precious em aberto, dando-nos a esperança de que a partir dali só algo de bom lhe pode suceder.

Certo é que, tanto no livro como no filme, a mensagem patente é a de que se tem de lutar para que não nos deixemos dominar pelo infortúnio e para que alcancemos os nossos sonhos. A vida não é fácil, porém, não é menos verdade que podemos sempre fazer algo para que ela melhore.

Classificação: 4/5* (Vale, sobretudo, pela sua mensagem)