segunda-feira, 12 de setembro de 2011

"José e Pilar" candidato aos Óscares



Congratulo-me e acho que é um forte candidato. Mais do que uma história, é um testemunho real. Porque nem só de Fado, Fátima e Futebol, ah!, e Fracasso, é feito este país.
A notícia acolá.
As minhas palavras sobre o filme aqui.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Toranja "Quebramos os Dois"


Eu a convencer-te que gostas de mim,
Tu a convenceres-te que não é bem assim.
Eu a mostrar-te o meu lado mais puro,
Tu a argumentares os teus inevitáveis.

Eras tu a dançares em pleno dia,
E eu encostado como quem não vê.
Eras tu a falar para esconder a saudade,
E eu a esconder-me do que não se dizia.

Afinal...
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois...

Desviando os olhos por sentir a verdade,
Juravas a certeza da mentira,
Mas sem queimar de mais,
Sem querer extingir o que já se sabia.

Eu fugia do toque como do cheiro,
Por saber que era o fim da roupa vestida,
Que inventara no meio do escuro onde estava,
Por ver o desespero na côr que trazias.

Afinal...
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois...

Era eu a despir-te do que era pequeno,
Tu a puxar-me para um lado mais perto,
Onde se contam histórias que nos atam,
Ao silêncio dos lábios que nos mata.

Eras tu a ficar por não saberes partir,
E eu a rezar para que desaparecesses,
Era eu a rezar para que ficasses,
Tu a ficares enquanto saías.

Não nos tocamos enquanto saías,
Não nos tocamos enquanto saímos,
Não nos tocamos e vamos fugindo,
Porque quebramos como crianças.

Afinal...
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois...

É quase pecado que se deixa.
Quase pecado que se ignora.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

"O Primo Basílio" de Eça de Queiroz

Título: O Primo Basílio
Autor: Eça de Queiroz
1.ª publicação: 1878
Editora: Círculo de Leitores
Colecção: Obras completas de Eça de Queiroz
Temática: Romance
N.º de páginas: 432

Sinopse

«Escrito em Inglaterra, O Primo Basílio, publicado em 1878, é um romance de costumes da média burguesia lisboeta e uma sátira moralizadora ao romanesco da sociedade da época.

Luísa é uma vítima das suas leituras negativas e da baixeza moral do primo, quando a ausência do marido a deixou entregue ao seu vazio interior. É uma vítima do ócio.

Eça sugere artisticamente os traços psicológicos das várias figuras da obra com os seus dramas, que de forma alguma enfraquecem o clima trágico, denso, do drama da heroína.»

Opinião

Eça de Queirozpropôs-se a escrever uma série de romances em que espelhasse os podres da sociedade portuguesa, todos de acordo com a corrente literária que adoptou: o realismo(1). Nasceu então O Primo Basílio - Um Episódio Doméstico, depois de um retrato bem tirado à província em O Crime do Padre Amaro.

Luísa é a típica mulher da média burguesia lisboeta. Sem uma ocupação que a preencha, a sua mente é um terreno fértil para devaneios românticos, incitados pelas novelas e pela música melodramática que consome, tal como pela educação que teve e que a deixou demasiado impressionável.

Sozinha em casa durante meses, já que o seu marido, Jorge, teve de se deslocar ao Alentejo, com o ressurgimento na sua vida do primo Basílio, a grande paixão da sua juventude, num momento em que se encontra tão desamparada, surge nela a vontade de provar o fruto proibido...

"Imaginava-o só [a Basílio], no seu quarto de hotel, infeliz e pálido; e daqui, pelos declives da sensibilidade, passava à recordação da sua pessoa, da sua voz convincente, das turbações do seu olhar dominante, e a memória demorava-se naquelas lembranças com uma sensação de felicidade, como a mão se esquece acariciando a plumagem doce de um pássaro raro. Sacudia a cabeça com impaciência, como se aquelas imaginações fossem os ferrões de insectos importunos: esforçava-se por pensar só em Jorge; mas as ideias más voltavam, mordiam-na: e achava-se desgraçada, sem saber o que queria, com vontades confusas de estar com Jorge, de consultar Leopoldina, de fugir para longe, ao acaso. Jesus, que infeliz que era! - E do fundo da sua natureza de preguiçosa vinha-lhe uma indefinida indignação contra Jorge, contra Basílio, contra os sentimentos, contra os deveres, contra tudo o que a fazia agitar-se e sofrer. Que a não secassem, santo Deus!". - página 122

Por um lado, Basílio encontra um antegozo nos jogos de sedução, como conquistador nato que é, e um verdadeiro gozo, maravilhado, quando toma a presa, com a qual rapidamente se enfastia e abandona. Luísa, por sua vez, é levada pelos galanteios e pela riqueza de Basílio conseguida no Brasil, e sente-se de tal forma lisonjeada pela sua atenção que, num acesso de futilidade, se chega a ver superior ao próprio marido e ao seu círculo de amigos.

Porém, o caso muda de figura quando é descoberto pela criada e esta passa a chantagear, sem tréguas, a patroa. Luísa vê-se então a mãos com uma situação para a qual não estava minimamente preparada, quer por causa dos remorsos e do receio de se ver exposta perante a sociedade, quer por chegar à conclusão que nem tão pouco amava Basílio.

A mensagem e a crítica entrelaçam-se, como sempre, nos romances de Eça e este não é excepção. O adultério é o pretexto utilizado para criticar a burguesia lisboeta em toda a sua dimensão. Desde a condição e educação da mulher, aos políticos, figurinos e ambientes da sociedade burguesa, tudo é devidamente escrutinado pela sua subtil, mas mordaz pena. E não foram poucas as vezes que me ri com algumas das situações criadas.

Assim, temos um leque de personagens secundárias que retratam vários dos tipos existentes na época: a criada Juliana, feia e de uma magreza que roça a secura, vê nas várias patroas que teve e agora em Luísa, a personificação do carrasco que tem feito da sua vida um inferno repleto de pobreza, o que a tornou uma pessoa profundamente má, invejosa e rancorosa; a cozinheira Joana, rapariga simples e de formas roliças, que aproveita as saídas dos patrões para namorar com o sapateiro. No grupo de amigos de Luísa e Jorge temos a D. Felicidade, amiga mais velha de Luísa, muito religiosa e sempre acossada por diversos achaques; o conselheiro Acácio, figura política em destaque, formal e bem tratante, é o moderador nas conversas e, alvo do amor da D. Felicidade, revela-se no final da história; o médico Julião, idealista frustrado, que espera e desespera por um cargo, o qual não quer conseguir por cunhas; e Sebastião, amigo de infância de Jorge, rico ocioso e sempre prestável. Sobram ainda Leopoldina, também amiga de Luísa,  a mal casada que não esconde os seus casos extraconjugais; e os próprios vizinhos de Luísa, sempre à espreita de uma pitada da sua vida para apimentarem as suas próprias vidas.

A linguagem é cuidada e/ou apropriada para cada tipo de personagem, como não poderia deixar de ser, mas em nenhum dos livros que já li do autor se adensa tanto como em Os Maias. Em O Primo Basílio adensa-se, mas de outra forma, pois cria-se uma atmosfera psicológica tão opressiva que quase tudo, desde as falas das personagens às descrições, parece anunciar o fim que se aproxima.

Já o público-alvo é, naturalmente, todo e qualquer contemporâneo do autor, especialmente a burguesia e as mulheres ociosas e consumidoras dos "folhetins". Naturalmente que ele foi beber, e muito, em Madame Bovary de Gustave Flaubert (2). Contudo, isso não invalida em nada o facto de existirem, em O Primo Basílio e em toda a obra de Eça, padrões intrinsecamente portugueses que se repetem ainda hoje - não fosse esta obra um clássico da literatura portuguesa.

Do mesmo autor já tinha lido O Mistério da Estrada de Sintra (1870), A Cidade e as Serras (1901, póstumo), Os Maias (1888), O Crime do Padre Amaro (1875), O Mandarim (1880) e, por último, O Primo Basílio (1878). Para mim, sem sombra de dúvida, o melhor romance de Eça, e um dos meus preferidos de sempre, é Os Maias. Desde a «questão existencial» de Carlos, à arquitectura monumental do romance, à história e à crítica, tudo revela uma mestria invejável. Agora, no que toca a'O Primo Basílio, senti algo diferente: uma empatia genuína por Luísa. Afinal de contas, toda a sua personalidade, e consequente vulnerabilidade, foram fruto de uma educação e de uma sociedade que apelavam ao sentimentalismo barato e que em nada a prepararam para a vida real.

Para rematar, o final, ao contrário de algumas críticas que li entretanto, não me desapontou. Nenhum melhor para mostrar como o «ódio» de Eça de Queiroz não se dirige às personagens em si, uma vez que são mero produto de uma fábrica defeituosa, mas sim a essa mesma fábrica: a sociedade. E mais não posso dizer, não vão as minhas palavras desvendá-lo.

Classificação: 5*   (Adorei! Como quase tudo o que li deste escritor.)

(1) Para os mais distraídos, o realismo do século XIX, do qual os seus paladinos em Portugal são Antero de Quental na poesia, e Eça de Queiroz na prosa - e isto só no que se refere à literatura -, medeia entre o romantismo de Alexandre Herculano e Almeida Garrett, e o naturalismo de Cesário Verde, e defende que a literatura deve servir como forma de exposição e reflexão da sociedade em que se vive, com o objectivo de a mudar para melhor, naturalmente.

(2) Se ainda não leram o livro, basta que consultem uma sinopse para comprovarem a minha afirmação.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Atenção: Colecção Não Nobel (Jornal Público) continua


Por um acaso dei com mais um volume desta colecção no quiosque onde vou. Fiquei então a saber que haverão mais 5 lançamentos. São eles: 

1/09 - Italo Calvino O Barão Trepador

8/09 - Émile Zola Nana

15/09 - Jorge de Sena O Físico Prodigioso

22/09 - Alberto Moravia O Conformista

29/09 - Jaroslav Hasek O Valente Soldado Chveik


Continuarão a sair semanalmente, às 5.ª feiras, por €5,95.



"Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve"


 ( via glamorous things )

Sei que este texto tem circulado pela blogosfera desde a sua publicação, mas não resisti a partilhá-lo convosco. Identifico-me com quase tudo e adorei lê-lo. Enjoy! (:
Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.

Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler dentro da mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.

Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira por cima, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.

Oferece-lhe outra chávena de café com leite.

Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.

Ela tem de arriscar, de alguma maneira.

Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.

Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.

Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.

Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.

Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.

Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.

Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.

Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve.

(Texto de Rosemary Urquico, encontrado no blogue de Cynthia Grow. Tradução “informal” de Carla Maia de Almeida para celebrar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril)