sábado, 13 de maio de 2017

"Homens imprudentemente poéticos" de Valter Hugo Mãe [Opinião]

Título: Homens imprudentemente poéticos
Autor: Valter Hugo Mãe
Edição/reimpressão: 2016
Editora: Porto Editora
Temática: Romance
N.º de páginas: 216
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Sinopse:


Num Japão antigo o artesão Itaro e o oleiro Saburo vivem uma vizinhança inimiga que, em avanços e recuos, lhes muda as prioridades e, sobretudo, a capacidade de se manterem boa gente.
A inimizade, contudo, é coisa pequena diante da miséria comum e do destino.
Conscientes da exuberância da natureza e da falha da sorte, o homem que faz leques e o homem que faz taças medem a sensatez e, sobretudo, os modos incondicionais de amarem suas distintas mulheres.

Valter Hugo Mãe prossegue a sua poética ímpar. Uma humaníssima visão do mundo.

Opinião:

Perante tão intensa leitura o sentimento de
 que qualquer palavra minha não passará de uma vacuidade é uma certeza. Remando contra esta corrente, a obrigação de partilhar convosco o deslumbramento que me proporcionou impôs-se.

Antes de mais, convém expor que a minha atracção pela cultura japonesa é elevada, não ultrapassando, até ao momento, o que conheço através do anime que tenho consumido desenfreadamente nos últimos anos.

Valter Hugo Mãe bebeu profundamente in loco das tradições e lendas japonesas. A sua narração lírica, que tanto me relembrou a do contador japonês Yoshi Hioki, impõe uma leitura pausada, infinitamente atenta, para dar lugar à absorção do que a simplicidade escuda.

Em A Desumanização, o anterior e único livro que havia lido do autor, levando-me numa viagem até à Islândia, uma dor e uma agressividade latentes estiveram sempre presentes tanto na Natureza como nos indivíduos. Neste Homens imprudentemente poéticos, momentos de intensa ternura, através das personagens da senhora Kame, a mãe longínqua, e da sua Matsu, a jovem cega, grandiosa até na sua forma limitada de reconhecer o mundo, causam admiração pelo seu despojamento e, acima de tudo, pela gratidão demonstrada.

No entanto, são os vizinhos desavindos, Itaro san, o artesão de leques, e Saburo san, o oleiro, o epicentro: enquanto Itaro, não obstante conceber peças de uma beleza inefável, se seduz por actos de violência para neles encontrar trágicas previsões, Saburo é a sua antítese, cultivando um jardim para moldar a natureza.

Após a morte da esposa do oleiro, também ele sucumbe à violência e provocações surgem de lado a lado, certeiras como golpes cirúrgicos, culminando num ódio desmedido. Será este exarcebar não mais do que a expressão dos medos: a fome, a miséria, a solidão e a morte que a todos assolam e que conduzem à irracionalidade da barbárie. Ainda que encontrem uma espécie de redenção, a felicidade ficará longe do seu reduto.

E, por último, o contraste entre a cultura japonesa e a ocidental nota-se em algo tão avassalador como a floresta dos suicidas [vejam mais sobre a experiência do autor neste local aqui]. Perto da aldeia, existe esta floresta onde os que desejam morrer se embrenham, não sem antes atarem uma corda a uma das árvores na sua orla. Serve esta corda para, no caso de as suas reflexões os levaram ao arrependimento, poderem encontrar o caminho de volta e se reencontrarem numa espécie de ressurreição. O autor colocou-a neste local para conveniência da narrativa, apesar de, na realidade, se situar no monte Fuji. Ora, a maior diferença prende-se com a aceitação dos japoneses perante o suicídio. Não há uma necessidade de dissuasão colectiva, parte de uma decisão individual cujo final levará o ser de volta à terra, sua origem.


Classificação: 5,0/5*

Sobre o autor:
Valter Hugo Mãe é um dos mais destacados autores portugueses da atualidade. A sua obra está traduzida em variadíssimas línguas, merecendo um prestigiado acolhimento em países como o Brasil, a Alemanha, a Espanha, a França ou a Croácia. Publicou sete romances: Homens imprudentemente poéticos; A desumanização; O filho de mil homens; a máquina de fazer espanhóis (Grande Prémio Portugal Telecom Melhor Livro do Ano e Prémio Portugal Telecom Melhor Romance do Ano); o apocalipse dos trabalhadores; o remorso de baltazar serapião (Prémio Literário José Saramago) e o nosso reino. Escreveu alguns livros para todas as idades, entre os quais: Contos de cães e maus lobos, O paraíso são os outros; As mais belas coisas do mundo e O rosto. A sua poesia foi reunida no volume contabilidade, entretanto esgotado. Publica a crónica Autobiografia Imaginária no Jornal de Letras. Fonte: WOOK

2 comentários:

  1. Já indicaram-me várias vezes o Valter Hugo Mãe, mas ainda não surgiu a oportunidade de lê-lo, talvez brevemente :) Obrigado pela sugestão :)

    Bitaites de um Madeirense

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    Respostas
    1. Tem um estilo muito particular, pelo que aconselho a leitores que pretendam alguma introspecção. Obrigada pela visita! :)

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